Achado arqueológico em Curuá revela ossos de peixe-boi, tartaruga e relíquias do século 18

  • 13/08/2026
(Foto: Reprodução)
Ossos de peixe-boi e tartarugas estão entre os achados arqueológicos em Curuá Reprodução Uma escavação para a construção de uma fossa sanitária no quintal de uma residência, em Curuá, no oeste do Pará, levou pesquisadores a um conjunto de vestígios arqueológicos que pode ajudar a compreender parte da história da Amazônia entre os séculos 18 e 19. ✅ Clique aqui e siga o canal g1 Santarém e Região no WhatsApp No local foram encontrados ossos e cascos de tartaruga-da-Amazônia, ossos de peixe-boi e de outros animais, além de vasilhas de cerâmica, fragmentos de vidro, faiança portuguesa, uma pequena lamparina e peças de louça. A análise inicial foi feita por uma equipe de pesquisadores que esteve no município para avaliar não apenas os objetos retirados durante a obra, mas principalmente o contexto em que eles estavam enterrados. Segundo o arqueólogo e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Marcony Alves, a observação das paredes da área escavada permitiu identificar uma camada de terra preta antropogênica, também conhecida como terra preta indígena, associada a antigas ocupações pré-coloniais. “A observação do material e da área cavada para a fossa permitiu compreender que se trata de vestígios dos séculos 18 ou 19 que foram colocados na base de um aterro feito com terra preta antropogênica, esta de origem pré-colonial, indígena”, explicou. Não há restos humanos nem urnas funerárias Urnas funerárias, ossos e outros artefatos são encontrados no Pará A descoberta chegou a ser inicialmente associada à possibilidade de existência de urnas funerárias e restos humanos. A análise feita pelos pesquisadores, porém, descartou essa hipótese. Marcony explica que não foram encontrados remanescentes humanos e que as peças identificadas não são urnas funerárias. “É muito importante dizer isso porque as pessoas podem achar que encontramos restos humanos e não encontramos”, afirmou. Os ossos encontrados são de animais, principalmente tartaruga-da-Amazônia e peixe-boi. Também foram identificados vestígios de outros animais que ainda passarão por estudos. Ossos indicam captura e processamento de animais Entre os materiais estão cascos e ossos de tartarugas-da-Amazônia e ossos de peixe-boi com marcas que, segundo os pesquisadores, são compatíveis com o uso de instrumentos metálicos. A hipótese é de que os restos estejam relacionados à captura, ao processamento e ao consumo desses animais. Durante o período colonial, a captura de tartarugas, peixe-boi, pirarucu e diferentes espécies de peixes era uma atividade importante na Amazônia. Os animais eram utilizados como alimento e também para a produção de derivados. A gordura das tartarugas, por exemplo, era usada para a produção de manteiga. A gordura de animais também podia ser utilizada para iluminação. “A gente conhece, pelos textos, que na Amazônia, durante o período colonial, se capturou muita tartaruga, muito peixe-boi, muito pirarucu e vários outros peixes”, explicou Marcony. Para o arqueólogo, a importância do achado está justamente na possibilidade de confrontar os registros históricos com evidências encontradas diretamente no solo. “Foi a primeira vez que conseguimos ver isso fora do texto, no registro arqueológico”, afirmou. Segundo ele, os materiais podem ajudar a compreender como essas atividades aconteciam em Curuá. “A gente começa a entender como esses bichos estavam sendo mortos, como eles estavam sendo mortos e como era essa sociedade”, disse. Vasilhas ajudam a identificar período dos materiais Além dos restos de animais, os pesquisadores encontraram diferentes objetos que podem ajudar a estabelecer a idade dos vestígios. Entre os materiais estão duas vasilhas inteiras, sem decoração, que apresentam características diferentes das cerâmicas normalmente produzidas durante o período colonial. Uma delas possui areia na composição. A outra apresenta cauixi, formado por pequenas estruturas de sílica de esponjas de água doce, utilizadas como elemento na fabricação da cerâmica. Também foram encontrados fragmentos de vidro, faiança portuguesa, uma pequena lamparina usada para colocar gordura e fragmentos de grandes recipientes. Outro objeto que chamou a atenção da equipe foi um prato de louça fina de produção holandesa. A data de fabricação da peça ainda está sendo pesquisada. “Tem duas vasilhas inteiras. A gente viu também uma pequena lamparina dessas de colocar banha. E também tem pedaços de vidro, tem faiança portuguesa, que é uma coisa muito comum no século 18”, explicou. Os pesquisadores ainda analisam se os objetos pertencem a uma mesma camada arqueológica ou se existem diferentes períodos de ocupação no local. Terra preta indígena está na área do achado Durante a análise da área escavada para a fossa, a equipe identificou uma camada de terra preta antropogênica com aproximadamente 1,5 metro a 1,8 metro de profundidade. A terra preta indígena é associada a antigas ocupações pré-coloniais e resulta de processos relacionados à presença humana prolongada nesses locais. Segundo Marcony, essa camada parece ter sido utilizada posteriormente na formação de um aterro ou plataforma. “A gente olhando essas camadas, parece que até 1,5 m, 1,80 m, tem um nível dessa terra preta que foi colocado lá em cima de um monte de ossos mais ou menos organizados”, explicou. Na parte inferior dessa estrutura estavam os ossos e outros materiais arqueológicos. O pesquisador ressalta que ainda são necessários estudos para compreender exatamente como esse aterro foi construído e qual era sua função. “Parece que foi feito um aterro. Tipo uma praia, e aí, por cima dessa praia, está essa camada enorme de terra preta, que deve ter sido tirada de outro lugar para fazer uma espécie de plataforma”, afirmou. Curuá está sobre área de sítio arqueológico A descoberta ocorreu em uma área que já é reconhecida como sítio arqueológico. O centro urbano de Curuá foi construído sobre o sítio Curuá I, que ocupa grande parte da região central da cidade e possui vestígios de diferentes períodos de ocupação. Registros arqueológicos apontam a existência de fragmentos de cerâmica em áreas como calçadas ainda não pavimentadas e no entorno de residências. O sítio foi registrado em 2012, em um projeto envolvendo pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Na ocasião, foram observados principalmente materiais encontrados na superfície. A escavação recente permitiu observar camadas arqueológicas abaixo do solo, além de estabelecer uma relação entre os diferentes materiais encontrados. Segundo Marcony, ainda há uma grande área do sítio que precisa ser estudada. “A cidade de Curuá foi construída sobre um sítio arqueológico que ainda não foi pesquisado”, afirmou. O sítio possui vestígios associados a ocupações pré-coloniais e também materiais relacionados ao período colonial, como os encontrados durante a escavação da fossa. Pesquisador destaca iniciativa da família A preservação do material foi possível também devido à iniciativa da família responsável pelo imóvel. Marlisson, neto de Edvaldo Bezerra, conhecido como Valdinho, acompanhou o processo e ajudou no contato com os pesquisadores. A orientação foi interromper a obra e procurar equipes especializadas para avaliar os materiais antes que a escavação continuasse. Para os pesquisadores, essa iniciativa foi fundamental, porque a posição dos objetos e a relação entre eles e as camadas de solo são importantes para a interpretação arqueológica. Durante a visita à residência, a equipe também encontrou outras peças que foram separadas e armazenadas para futuras pesquisas. Quantidade de material chama atenção Para Marcony, a quantidade e a diversidade dos objetos encontrados são um dos aspectos que mais chamam atenção. Segundo ele, ainda existem poucos registros arqueológicos escavados de forma controlada que permitam estudar o período colonial na região. “Mesmo em Santarém, que foi uma missão religiosa superimportante, os vestígios são muito poucos desse período do século 18, talvez alguma coisa do 19, escavados de uma maneira controlada. E mesmo que tenha sido achado por acidente, a quantidade de material impressiona muito”, afirmou. A pesquisa também pode ajudar a compreender a relação entre conhecimentos indígenas e a sociedade formada durante o período colonial. “É uma sociedade que estava emergindo a partir do conhecimento indígena, sob o controle português, e como é que isso acontece”, explicou. Descoberta dialoga com pesquisas sobre biodiversidade amazônica Gordura da tartaruga era feita a manteiga Reprodução Os vestígios encontrados em Curuá também podem contribuir para pesquisas que buscam compreender como as populações amazônicas do passado utilizavam os recursos naturais. Um dos projetos relacionados a esse tema é o Janelas para a Biodiversidade do Baixo Amazonas (JABBA), que reúne pesquisadores interessados em estudar restos de animais e plantas preservados em sítios arqueológicos da região. O projeto busca compreender a diversidade de espécies consumidas pelas populações amazônicas antigas e a relação entre esses grupos e os ambientes de várzea e os rios. A análise de ossos de peixes, tartarugas e outros animais permite investigar hábitos alimentares, práticas de pesca, caça e formas de aproveitamento dos recursos naturais. No caso de Curuá, os ossos de tartaruga-da-Amazônia e peixe-boi podem contribuir para documentar arqueologicamente práticas de captura que já aparecem em relatos históricos sobre o período colonial. Iphan deve realizar vistoria em outubro Além da análise realizada pela equipe de pesquisadores, técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) devem visitar Curuá em outubro para avaliar o material. A expectativa é que o órgão faça a vistoria técnica e contribua para a catalogação e preservação dos achados. A descoberta também reforça a necessidade de novas pesquisas no sítio Curuá I, que ocupa uma área extensa do centro urbano do município. Os materiais encontrados deverão passar por estudos mais aprofundados para determinar a idade, a origem e a função de cada peça, além de esclarecer como os diferentes vestígios foram depositados no local. Para os pesquisadores, o conjunto encontrado pode ajudar a preencher uma lacuna sobre a história de Curuá e da região do Baixo Amazonas, mostrando, a partir dos vestígios arqueológicos, aspectos da alimentação, do aproveitamento dos recursos naturais e das transformações sociais ocorridas na Amazônia entre os séculos 18 e 19. VÍDEOS: mais vistos do g1 Santarém e Região

FONTE: https://g1.globo.com/pa/santarem-regiao/noticia/2026/08/13/achado-arqueologico-em-curua-revela-ossos-de-peixe-boi-tartaruga-e-reliquias-do-seculo-18.ghtml


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